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Quando a ciência vira cinzas, o Brasil perde parte do futuro

Prejuízo de R$ 100 milhões e perdas em estudos sobre câncer, Covid-19, autismo e TDAH expõem a dimensão da tragédia para a ciência brasileira

Cristina Esteche
Cristina Esteche Jornalista
6 min de leitura
Quando a ciência vira cinzas, o Brasil perde parte do futuro

O incêndio que atingiu a Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), na noite de quarta (7), no Recife, não consumiu apenas laboratórios e equipamentos avaliados em R$ 100 milhões. Levou às cinzas materiais e dados de até 20 anos de pesquisas científicas. Entre os estudos atingidos estavam trabalhos sobre câncer, Covid-19, obesidade, Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), autismo e outras áreas fundamentais para a saúde. Uma perda que ultrapassa qualquer cálculo financeiro.

O fogo atingiu o prédio da Diretoria de Inovação e Empreendedorismo, destruindo instalações e comprometendo cerca de 80 dissertações e teses. Amostras, experimentos e resultados construídos ao longo de anos foram perdidos. Não estamos falando apenas de trabalhos acadêmicos. Mas, sim, de pesquisas que poderiam contribuir para novos tratamentos, medicamentos e avanços na qualidade de vida da população. O prejuízo para a ciência brasileira é imenso e, em parte, irreparável.

O episódio torna-se ainda mais inquietante por ser o terceiro incêndio registrado na universidade em pouco mais de uma semana. Há também relatos divulgados nas redes sociais de que estudantes teriam recebido mensagens com ameaças de explosão contra instalações da UFPE horas antes do ocorrido. A autenticidade, a autoria e qualquer eventual relação dessas ameaças com o incêndio ainda precisam ser esclarecidas. A Polícia Federal investiga as causas do fogo.

É preciso compreender a dimensão dessa tragédia. Pesquisas sobre câncer podem representar anos de busca por alternativas terapêuticas. Estudos sobre autismo e TDAH ajudam a ampliar o conhecimento sobre condições que afetam milhões de pessoas. Trabalhos relacionados à Covid-19 contribuem para compreender uma doença que marcou o mundo. Quando a ciência perde décadas de trabalho, não são apenas os pesquisadores que sofrem. É a sociedade inteira que deixa de avançar.

Enquanto isso, cabe uma pergunta incômoda: quanto vale a ciência em um país que precisa aprender a preservar o patrimônio intelectual? O Brasil não pode continuar tratando universidades como despesas dispensáveis e a proteção do conhecimento como assunto secundário. A causa do incêndio ainda é desconhecida, mas a tragédia reforça a necessidade de investimentos, manutenção, prevenção e segurança. Ciência não se sustenta apenas com discursos de valorização.

O poder público precisa responder com atitudes concretas. É necessário recuperar os laboratórios, assegurar recursos para a continuidade das pesquisas e investigar rigorosamente as circunstâncias dos incêndios e as ameaças relatadas. Se houve crime, que os responsáveis sejam identificados. Se forem constatadas falhas, que sejam corrigidas. O que não pode acontecer é transformar uma perda dessa magnitude em mais uma tragédia esquecida depois que as câmeras se afastarem.

O incêndio da UFPE, portanto, é uma perda para o presente e uma ameaça ao futuro da ciência brasileira. Foram atingidos anos de dedicação de professores, estudantes e pesquisadores que buscavam respostas para problemas reais da sociedade. Prédios podem ser reconstruídos, equipamentos podem ser comprados.

Mas dados, amostras e descobertas acumulados durante 20 anos podem jamais ser recuperados. E há algo profundamente cruel nisso: enquanto o país tenta encontrar caminhos para tratar doenças e melhorar vidas, parte das respostas que estavam sendo construídas pode ter desaparecido em uma única noite. Não foi apenas a universidade que perdeu. Foi o Brasil.

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