Há uma espécie de cegueira coletiva rondando o debate público. Não é a falta de visão, mas a incapacidade de enxergar o outro para além das próprias certezas. A metáfora lembra 'Ensaio sobre a Cegueira', de José Saramago: todos veem, mas poucos realmente percebem.
O medo ajuda a explicar parte desse comportamento. Medo do futuro, da violência, da perda de espaço, das mudanças e até de parecer fraco. Quando a insegurança cresce, respostas simples ganham força.
A política se alimenta bem disso. À direita e à esquerda, há discursos que oferecem culpados, inimigos e certezas embaladas para consumo rápido. Muda a bandeira, mas a lógica é parecida.
As redes sociais ampliam o problema. Muita gente já não comenta o que leu, mas aquilo que imaginou ter lido. Critica conforme a própria crença e responde a uma intenção que muitas vezes nem estava no texto.
O mais curioso é que isso atinge até pessoas que se consideram esclarecidas, informadas e tolerantes. Defendem liberdade de pensamento, mas se irritam quando alguém pensa diferente. Pregam diversidade, desde que a diversidade não contrarie as próprias convicções.
É aí que a cegueira se instala de vez. O debate deixa de ser sobre ideias e vira defesa de identidade. O outro já não é interlocutor; passa a ser um adversário a ser corrigido, desqualificado ou exposto.
Talvez o desafio do nosso tempo seja recuperar algo simples: a capacidade de duvidar das próprias certezas. Porque quando todo mundo acredita enxergar perfeitamente, quase ninguém percebe o quanto já deixou de ver.