Estive em Belém para cobrir as atividades do Pacto Global de Jovens pelo Clima na COP30. Lá, sem pensar muito no gancho, prometi uma coluna sobre a cidade a alguns moradores que conheci.
Nesta semana, o premiê alemão, rude e desrespeitosamente, disse que os jornalistas que o acompanhavam ficaram contentes ao ir embora "daquele lugar". Ensejo perfeito.
Lula reagiu e disse que o premiê deveria ter ido em boteco, dançado, provado a culinária paraense. Atesto, de certa forma. Porque visitei alguns botecos: do Bendita Marvada, na Senador Lemos, ao Bar da Loura, na Marquês de Herval, ao som dum bom tecnomelody. Ou porque provei o Menu Pai d’Égua (vatapá, tacacá, maniçoba, isca de dourada e pirarucu, camarão e charque) no Point do Açaí. Também porque acompanhei uma roda de carimbó ali no Boulevard da Gastronomia.

O premiê, pouco antes da infeliz frase, para saudar o próprio país desfazendo-se de outro, dissera que os alemães vivem em um dos países mais bonitos do mundo. A isso o presidente poderia responder que das Docas ao Utinga há belezas que nenhuma Berlim sonhou. Que cruzar o Rio Guamá de barquinho durante o pôr do sol é tão pitoresco que andar de iate no Spree.
Mas isso toda a gente de Belém, especialmente a que prometi esta coluna, sabe — e poderia defender a capital bem melhor que este colunista. E sem ufanismo, pois ouvi das mesmas bocas sobre a maquiagem que a cidade sofreu nos últimos meses; a sordidez da dinastia Barbalho; a quase inexistência de saneamento básico, entre outros desafios.

Os paraenses e os povos da Amazônia sabem de seus percalços. E receberam de muito bom grado a gente estrangeira; delegações que, como a do premiê alemão, talvez nem pisaram no Ver-o-peso. O problema da fala do enfim nomeado Friedrich Wertz não é exatamente o conteúdo. Gostar ou não de estar em Belém, na esfera civil, tanto faz. Isso vir do chanceler da Alemanha, numa fala pública, eis o problema.
Esse discurso de desdém que muitos europeus destilam e que brasileiros compram é pura xenofobia. Como tratar a emergência climática sem estar disposto a sair do próprio conforto?

Belém tem problemas. Muitos, inclusive, deixados pelo próprio processo de colonização. Vir aqui, ou melhor, ir até lá para depois voltar ao país que iniciou duas grandes guerras e dizer, subtextualmente, que ficou feliz em retornar daquele país feio e subdesenvolvido? Deixo aqui as palavras de uma amiga que fiz durante a COP: "Aqui a gente só dá uma chance. Não gostou? Não volte. Gostou? Volte mais vezes."
POR OUTRO LADO
Durante as atividades do GYCP, vi jovens franceses, colombianos e rapa nuis da Ilha de Páscoa debatendo a emergência climática engajadamente. Apesar do desafio da língua, houve integração, respeito e diversos debates que resultaram na 'Carta da Terra', documento que será entregue às máximas autoridades da COP. O futuro é de quem se importa.
